O meu cancro

“O cancro é uma merda.”

«O cancro é uma merda.
Uma cobardia.
Um inimigo que não luta de frente, que se infiltra,
que corrói, que destrói sem pressa.
Quando não mata, transforma.
Rouba a autoestima, o amor-próprio,
a imagem que uma pessoa tem de si mesma.
Faz com que um corpo deixe de parecer um corpo; passa a ser um campo de batalha.
No meio disto, aparecem os optimistas profissionais, os vendedores de frases feitas.
“Vai ficar tudo bem.”
“Tu és mais forte do que ele.”
O optimismo bacoco nunca curou ninguém.
A empatia talvez.
A empatia não é arrotar sentenças.
Não é dizer a quem vive num corpo armadilhado para sorrir a toda a hora.
Isso é o contrário da empatia.
A empatia é estar lá.
Sem regras, sem frases vazias,
sem aquele tom de quem não sabe o que é sofrer — mas que quer parecer que sabe.
O cancro traz outras doenças silenciosas.
A solidão, o medo de ser um fardo — até o preconceito.
Sim, ainda há quem o olhe de lado.
Como se fosse contagioso.
Não, o cancro não se pega.
A estupidez sim.»
Pedro Chagas Freitas, aqui.

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